sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Figurinhas: Nico, um operário

Em 1947 o futebol paulista já tinha se profissionalizado. Os atletas, os clubes e o público já tinham percebido que aquela história de amor à camisa havia ficado para trás, e quem pagasse melhor ou desse as melhores condições contrataria os maiores jogadores.

Por isso mesmo o jornal Mundo Esportivo chamou Nico, do Juventus, de "exemplo". Naquele ano, João Batista Chiereghim anunciara que iria pendurar as chuteiras. O médio esquerdo do Juventus foi titular de sua posição por onze anos. E nunca jogou em outro time, sendo essa, nas palavras do jornal, "sua mais interessante particularidade".



Nico nasceu no dia 14 de julho de 1916. Começou a jogar futebol aos nove anos, no campo de várzea do Oriente F.C.*, da Vila Prudente, o mais importante clube daquele bairro. Era ponta esquerda. Atuava, também, quando chamado, por outra equipe amadora, o Corinthians de Jundiaí, onde mudou de posição, passando a compor a linha intermediária.

Em 1936, o Juventus convidou Nico a se juntar a sua equipe de aspirantes. Foi promovido para o time principal seis meses depois, mas só passou a ser remunerado por jogar futebol dois anos depois. Isso mesmo. Nico atuou de graça até 1938, quando assinou seu primeiro contrato.

Nos primeiros anos com o Moleque Travesso, Nico passou a ser conhecido como Nico II, em razão da presença de outro Nico, mais famoso, meia direita que integrou a lendária equipe da "Máquina Juventina" em 1932 e foi o primeiro juventino a ser convocado para a Seleção Brasileira. Voltou a ser Nico após a aposentadoria do xará.

Seu único título foi o de campeão do Torneio Relâmpago de Inauguração do Pacaembu (no qual o técnico era o primeiro Nico). Mas ele se recordava com carinho de outro momento emocionante: um empate com o Corinthians pelo segundo turno do Campeonato Paulista de 1945. O Juventus perdia por 3 a 1 e conseguiu igualar o marcador.

O clube era, mesmo, parte da vida de João Batista Chiereghim. Desde 1929 era funcionário do Cotonifício Rodolfo Crespi, onde nasceu o Moleque Travesso. Estava satisfeito com o emprego e com a vida que levava. Disse que sentia particular admiração pelo Juventus e seu desejo era terminar a carreira ali. E nunca sentiu vontade de defender outra agremiação.

Simpático, calmo, gentil e muito popular entre os juventinos, gostava de basquete, não bebia, fumava moderadamente, não gostava de dançar e nem de jogar cartas. Sua principal diversão era o cinema. Acumulou, ao longo da carreira, apenas Cr$ 80 mil cruzeiros, valor suficiente para comprar uma casa e pagar das despesas do seu casamento. Nico, nas palavras do Mundo Esportivo, nada tinha de extraordinário.

Creio que ele tinha algo de extraordinário, sim. Driblou o profissionalismo e conseguiu conciliar o futebol com outra profissão, sem maiores ambições, e encontrou outra atividade que lhe remunerava e pôde lhe garantir uma vida confortável após mais de uma década enfrentando Brandão, Leônidas, Oberdan, Cláudio e outros...

Nico faleceu no dia 20 de julho de 2013, seis dias após completar 97 anos de idade. Em 2011, foi homenageado pelo clube. Aqui está ele ladeado por Michelle Gianella e Luciano Faccioli:


*o Oriente F.C. era um clube de várzea ligado à Manufatura de Chapéus Ítalo-Brasileira Oriente. Em 1934, a indústria foi comprada pela família Crespi e renomeada Capellifício Crespi, mudando-se também o nome do clube. Encerrou suas atividades em 1946.

fontes:
Mundo Esportivo, edições de 4 e 11 de julho de 1947
Glórias de um Moleque Travesso, de Fernando Razzo Galuppo, Angelo E. Agarelli e Vicente Romano Netto, editora BB.
Vila Prudente, do bonde de burro ao Metrô, de Newton Zadra, edição do autor.

9 comentários:

  1. Pra sempre apenas um moleque...

    Boa, mestre!

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  2. Belissima homenagem a esse atleta que honrou as cores grenás como poucos!!! Parabéns!!! VIVA O JUVENTUS!!

    Abraços
    Fernando Galuppo

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  3. Parabéns pela bela homenagem. Tenho certeza de que, se o time do Crespi voltasse a existir hoje, você trocaria de amores futebolisticos sem hesitação, tal o interesse que você demonstra por aquele ancestral juventino. Abraços

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  4. Parabéns pelo texto e pela pesquisa.

    Grande exemplo o Sr. Nico que poderiar ganhar muitas outras homenagens da familia grená.

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  5. Cristina
    Obrigado pela belíssima reportagem. Comunicarei aos filhos do Sr. Nico
    e com certeza eles guardarão com muito carinho esta reportagem.
    Ele realmente mereceu

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  6. MATÉRIA MUITO LEGAL!
    PARABÉNS.

    OTAVIO LIBEDADE

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